natural-x-artificial


Muitos pensadores têm a justiça como algo inventado pela humanidade. Decerto que as noções do que seja justo e do que não seja justo são proporcionadas pela razão e que as opiniões que esta, a razão, tem, provêm, em grande parte, das experiências que o individuo sente e delibera, sendo, em parte, influenciado pelos costumes da sociedade em que vive, supomos que a justiça é inerente a natureza humana, pois tem relação com a razão. Mas, o que é justiça? Seria ela inventada?

É observável em diversas sociedades que as noções de justiça são diversas – inclui-se as de injustiças também -, sendo muitas vezes o que é justo em um lugar, injusto em outro logo adiante do território ou no próprio tempo, como de país para país ou de hoje para daqui a mil anos. Mas, uma coisa é certa: essa noção existe em qualquer sociedade. Pois, a vida em sociedade ajuda para o avanço da razão. Podendo-se dizer, então, que, pelo menos no que se sabe até hoje, sociedade, razão e noção de justiça estão bem relacionadas.

Mas, teria, por necessidade, uma ordem para sociedade, razão e noção de justiça? Aqui uma suposição lógica seria: para se formar uma sociedade é preciso ter noções de justiça para tornar possível o convívio de tantas diferenças particulares, que para ter noções de justiça, é preciso ter razão, que se desenvolve com a sociedade. Porém, aqui sendo simplista, é muito difícil provar ou, sequer, mensurar o quando e quanto nas relações destas três: sociedade, razão e noção de justiça.

Porém, parto de uma opinião muito aceita: a de que a noção de justiça vem da razão e de que a justiça é uma virtude artificial, enquanto inventada pelo homem, mas natural, enquanto uma invenção necessária. Em uma palavra: a justiça é natural, enquanto a tomemos por necessária e vinda da virtude, que é natural. Mas, há um grande pressuposto: o de nosso indivíduo humano estar em sociedade. Pois, se pressupormos um ser humano isolado, sabemos que não desenvolve a mesma razão que um ser humano em sociedade e dotado de uma língua.

Então, vejo que cabe-nos perceber que: a justiça, enquanto algo natural, por que não se manifesta num indivíduo isolado, este, que vive de instintos e de tão pouca razão, que é plausível, para muitos, dizer que sequer a tem? A justiça seria para o humano algo inato, porém em potência que pode se desenvolver ou não? Ao que parece, se tomarmos a justiça, a noção de justiça ou, ainda, certa razão desenvolvida que nomeamos como razão – pois, parece que, para alguns, razão ou se tem ou não tem-, vemos que só existem, de fato, em sociedade.

Assim, aqui o conceito que se usa de natural pode alternar nossas conclusões, ao que parece, sobre o assunto da justiça. Se usarmos natural como algo que seja inato e que só apareça no desenvolver do indivíduo – em potência – dependendo das influências externas e suas relações com o indivíduo – a necessidade -, a justiça seria natural mesmo. Mas, se usarmos natural como algo que seja inato e que aparece no indivíduo independendo das influências externas e suas relações com o indivíduo, vemos que não é isso que acontece, vide o exemplo do homem isolado. Deste último modo, através da contradição que implica o exemplo do homem isolado, a justiça é vista como algo realmente inventado, ou seja artificial.

Então, à luz desta linha de raciocínio, chegamos a duas definições plausíveis que são contraditórias entre si, sobre o mesmo assunto. Agora, saber qual é verdadeira e qual não é sobre o natural, naturalmente parece não estar ao alcance da humanidade, pelo menos até hoje. Mas, uma coisa é certa: o modo como observamos uma coisa ou um acontecimento influencia nossos pensamentos e ações, assim como estes últimos influenciam como observamos.

Paulo Übermensch

2 respostas a “A natureza da justiça”

  1. Avatar de Eduardo Parreira Da Silva
    Eduardo Parreira Da Silva

    Por favor, eu precisava da fonte desse texto maravilhoso do Paulo Übermensch. Grato. Eduardo

    1. Avatar de Paulo Abe

      Olá, Eduardo. Pode citar Paulo Abe in “Nome do texto” e o site.
      Que bom que gostou.
      Abraços
      Att Projeto Phronesis

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