” No decorrer do século V a.C., reveste-se de aspectos múltiplos o esforço para construir correntes de propostas que se comunicam de modo tão necessário que cada uma delas implica todas as outras. Parmênides de golpe lhe dá a sua forma extrema ao liberar as bases do conceito de ser com um rigor sem compromisso. Os imperativos lógicos do pensamento fazem desvanecer-se a ilusão de que a multiplicidade dos seres pudera ser produzida por uma gênese qualquer. O ser exclui a geração. De onde o ser poderia ter sido gerado? Se for de si-mesmo, não terá havido geração. Se for do não-ser, chega-se a consequências contraditórias: antes da geração, o que chamamos ser era então o não-ser. A respeito do ser, não se pode nem dizer nem pensar que ele se tornou, mas somente que ele é. A verdade desta proposta não é constatada empiricamente; ao contrário, a despeito da aparência do movimento do movimento, da mudança, da dispersão das coisas no espaço, da sua diversidade no decorrer do tempo, a sua evidência impõe-se absolutamente ao espírito no final de uma demonstração indireta, mostrando que o enunciado contrário é logicamente impossível. Comandado do interior por essa ordem demonstrativa, o pensamento não tem outro objeto a não ser aquilo que lhe pertence propriamente, o lógos, o inteligível.”
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. Estudos de psicologia da história Editora: Paz e Terra. pp. 483

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