Habitualmente definimos esta disciplina através da decomposição etimológica da palavra, theos + logia, obtendo assim “o falar (estudo) sobre deus(es)”. Nas tradições monoteístas este deus é compreendido como “o Deus”, logo temos no Cristianismo, por exemplo, estudo, tratado ou doutrina sobre Deus.
Todavia como é possível fundamentar um falar sobre Deus, quando nossa capacidade de apreender-lhe de forma essencial se mostra insuficiente e tão limitada?
Em resumo esta questão refere-se à própria possibilidade da Teologia, mas nós retornaremos a ela no momento apropriado.
Entre os mais destacados baluartes da teologia cristã encontramos Aurélio Agostinho (354-430) o Bispo de Hipona ou simplesmente Santo Agostinho.
Na obra “A Cidade de Deus” ele nos expõe, seguindo a classificação de Marco Terêncio Varrão (séc. I a.C.), os três gêneros de Teologia: 1º. Teologia mítica ou fabulosa; 2º. Teologia física ou natural e 3º. Teologia Civil.
“Em latim, se o uso permitisse, ao primeiro gênero chamaríamos fabular, mas chamemo-lo fabuloso. Chamou-se mítico, de fábula, porque em grego mythos significa fábula. A linguagem costumeira já permite dar-se ao segundo o nome de natural. O terceiro foi ele mesmo que o expressou em latim, chamando-lhe civil”.[1]
Segundo Agostinho, o primeiro gênero é usado pelos poetas, o segundo pelos filósofos e o terceiro pelos cidadãos e em especial pelos sacerdotes. Diz mais:
“No primeiro que mencionei, diz há muitas ficções contra a dignidade e natureza imortal… O segundo que demonstrei; sobre ele os filósofos legaram-nos muitos livros. Neles se fala sobre a essência, lugar, espécie e qualidade dos deuses, sobre se são eternos, se constam de fogo como acreditou Heráclito, se de números, como Pitágoras, ou átomos, como diz Epicuro… O terceiro gênero, diz, é o que os cidadãos e de modo especial os sacerdotes devem conhecer e pôr em prática nas urbes. Nele se acha a que deuses se há de render culto público e a que ritos e sacrifícios está cada qual obrigado”.[2]
Agostinho desenvolve sua reflexão demonstrando que a teologia fabulosa subsume-se na teologia civil, ou vice-versa, e que de um modo mais especifico a teologia natural é mais correta e moralmente aceitável que as outras duas, segue nisto o paradigma platônico que condena a imoralidade da poesia, segundo o modelo usual grego, e conseqüentemente da religião e sociedade que dela se nutre.
(continua)
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