O “eu”, o ser de relações.

O Indivíduo, “eu” ou self, de que tratamos, é o espírito. E este último é a relação de opostos se relacionando consigo mesmo, como, por exemplo, o corpo e a alma. Ou seja, o ser humano, que, para Kierkegaard, é um ser de relações consigo mesmo, com o outro e com Deus, é uma síntese inacabada das relações de finito e infinito, de temporal e eterno, de liberdade e necessidade. E, quando a relação de opostos se conhece a si, através da relação com Deus, se tem o eu. A existência humana é como um paradoxo.

Numa relação de dois termos, a própria relação entra como um terceiro, como uma unidade negativa, e cada um daqueles termos se relaciona com a relação, tendo cada um existência separada no seu relacionar-se com a relação(…) Se, pelo contrário, a relação se conhece a si própria, esta última relação que se estabelece é um terceiro termo positivo, e temos então o eu.[1]

Uma relação que se orienta sobre si só pode ser estabelecida por si própria ou por outro. Caso fosse orientada apenas por si, existiria apenas uma forma do verdadeiro desespero, o não querer, em desespero, ser si próprio. Mas, com a relação com o Outro, em vez de querer nos desembaraçar do nosso eu, temos uma vontade desesperada de ser o próprio eu.

Porém, não é a mera relação que ocasiona o desespero na existência humana. E, sim, a falta de uma síntese das relações que formam o eu. Assim, esta é a face da discordância do eu, o desequilíbrio de suas relações, o desespero de fato.


[1] KIERKEGAARD, Soren.  O desespero humano. 1973. Editora Abril. P. 337

Uma resposta a “Kierkegaard e o “eu”, o ser de relações.”

  1. Avatar de Josafá Rocha
    Josafá Rocha

    Paulo Abe, fiquei com algumas dúvidas sobre o conteúdo do texto.

    No trecho: “E, quando a relação de opostos se conhece a si, através da relação com Deus, se tem o eu”. De onde veio esse “através da relação com Deus”?

    Também não entendi o que o autor quer dizer com “termo positivo” e “unidade negativa”.

    Este foi o único lugar onde encontrei alguém se propondo a tratar de forma séria o significado do “eu” em Kierkegaard. Agradeço se puder tirar minhas dúvidas.

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