Para Hume, uma vez que vemos uma bola de bilhar em velocidade se chocar com outra em repouso, vemos a causa-e-efeito da experiência, e a bola que estava em repouso se movimenta com o choque, mas, de maneira inversa, a que estava em movimentao agora, repousa. Porém, “segue-se que todos os raciocínios relativos a causa e efeito são fundados na experiência, .e que todos os raciocínios advindos da experiência são fundados no pressuposto de que o curso da natureza continuará uniformemente o mesmo. Concluímos que causas semelhantes, em semelhantes circunstâncias, produzirão sempre efeitos semelhantes”[1].
É evidente que um Adão sem experiência nenhuma, apenas com a razão nãopoderia induzir que sempre que uma bola de bilhar em movimento se chocasse com outra em repouso aconteceria a mesma coisa.
Somos determinados exclusivamente pelo Hábito a supor o futuro conforme ao passado. Quando vejo uma bola de bilhar movendo-se em direção a outra, minha mente é imediatamente levada pelo hábito ao efeito costumeiro, e antecipa minha visão, concebendo a segunda bola em movimento. Nada há, nesses objetos, considerados abstrata e independentemente da experiência, que me leve a tal conclusão. E mesmo depois de eu ter tido a experiência de muitos efeitos dessa espécie, nenhum argumento me determina a supor que o efeito será conforme à experiência passada. As forças pelas qi tais os corpos agem são inteiramente desconhecidas. Percebemos apenas suas qualidades sensíveis: e que razão temos para pensar que as mesmas forças hão de aparecer sempre unidas às mesmas qualidades sensíveis?
Não é, pois, a razão que conduz a vida, mas o hábito. Apenas ele determina a mente, em todas as circunstâncias, a supor que o futuro é conforme ao passado. Por mais simples que este passo possa parecer, nem em toda a eternidade a razão seria capaz de dá-lo. [2]
Pelo hábito, inferimos, antes de ver um nova bola de bilhar se chocar a outra em repouso, uma relação de causa-e-efeito. O hábito antecipa a própria visão de movimento. ‘Sabemos’ o movimento antes de vê-lo. E esta crença de que a bola se movimentará antes mesmo do choque é uma das inovações que é discutida por Hume.
[1] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 65-7
[2] HUME, David, Resumo de um tratado da natureza humana. Editora Paraula. P. 69-71
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