Resumo:
Enrico Berti – As razões de Aristóteles – Terceiro Capítulo: O método da Metafísica. Editora Loyola.
O procedimento diaporético.
Após Aristóteles ter denominado a física constituída somente pelas realidades naturais e móveis, ainda é exigente, para a física, um motor imóvel do céu, comumente identificado como Deus. Assim, a metafísica, a ciência mais elevada, a que se propõe procurar a “sabedoria” (Sophia), as causas primeiras, ou seja, ela deve ainda também tratar de Deus – tarefa que a física não poderia se ocupar -, porque Deus é uma entre as causas primeiras (cap. 2, 982 a8-9).
Na física, Aristóteles julga já ter teorizado suficientemente bem as causas primeiras em sua “história da filosofia”, onde, com parcialidade, procura confirmar sua teoria das quatro causas. Desta forma, mostrando como a metafísica situa-se em uma relação de estreita continuidade com a física.
Aristóteles mostra que cada um dos filósofos que o precederam, reconheceram alguma das quatro causas, confirmando a validez de sua doutrina. Posteriormente, abre uma crítica sobre as filosofias passadas, argumentando que nenhuma entendeu o tipo de causa descoberta, e, sobretudo, que nenhuma especificou todas as quatros simultaneamente.
Entretanto, uma vez que essas idéias já foram expostas na física, Aristóteles, apenas, as confirma novamente. O livro ainda é uma introdução à verdadeira investigação.
Esta investigação se inicia da seguinte forma: primeiro, para Aristóteles, devemos começar com as aporias, ou seja, a metafísica deve trabalhar no terreno da discussão das diferentes opiniões. Posteriormente, se deve mostrar outras aporias e opiniões, eventualmente esquecidas. Desta maneira, se pode, através de eliminação, garantir a validez dos resultados.
E tal validez se dá apenas através de três momentos: 1) a “aporia”, a falta de caminho, bloqueio entre soluções opostas de mesmo valor; 2) o “desenvolver da aporia”, do qual se declara a necessidade para aqueles que querem investigar bem. Procura-se prever para onde levam ambas as direções que aparecem diante nós. Ou, ainda, a dedução das conseqüências extremas de cada umas das duas hipóteses opostas, que conduz ao objetivo de ver qual delas leva a uma contradição e qual, ao contrário, não[1]; 3) a “euporia”, o bom caminho, identifica-se com a solução da “aporia”.
Para Platão, para se encontrar o que se procura é necessário, de um lado, não o conhecer, do contrário, não se procuraria, e, por outro lado, já conhecê-lo, para poder reconhecer, se enfim, se encontrou, mediante sua teoria de reminiscência, o que se procura. Aristóteles já, através do procedimento diaporético, mediante a aporia, a conduz para os extremos de suas hipóteses opostas, e, assim, vê qual leva à contradição ou à não-contradição.
No final do livro III, Aristóteles se dedica a enumerar as quinze aporias concernentes ao objeto da metafísica, os princípios, as causas. Em seguida, ao procedimento diaporético usado em cada aporia, levando-as à duas hipóteses opostas (antítese e tese) e ver qual delas não é levada à contradição.[2]
Esta “força dialética” de trabalhar com opostos é, claramente, pertencente aos dialéticos, ou seja, ao próprio Platão, platônicos, outros acadêmicos e também os “dialéticos” dos quais se refere na Metafísica III 1. Contudo, nos Tópicos, Aristóteles se refere à dialética por ele mesmo descrita, isto é, o desenvolvimento das aporias na direção oposta, a investigação até os princípios partindo justamente dos éndoxa, representações.
A única diferença entre a dialética de Platão e Aristóteles é a avaliação que lhe davam. Para Platão, era por si, a única e verdadeira ciência. Para Aristóteles, somente crítica, “peirástica”, não ciência, mas método. Sobre os princípios aos quais chegava a dialética platônica, ou seja, o Uno e o Múltiplo, não se poderia afirmar que são os verdadeiros princípios, uma vez que, para Aristóteles, não consideram os muitos significados do ser.
A resposta a Platão vem no livro IV, a metafísica, como expõe Aritstóteles, colhe os melhores frutos da dialética platônica, não apenas sob o aspecto da estrutura argumentativa, mas também sob aquele de conseguir conhecer os verdadeiros princípios. E consegue resultado graças a sua análise semântica, a distinção entre os múltiplos significados do ser, que permite descobrir os autênticos princípios do ser.
Hegel também admite que para se chegar à ciência ou conceito se deve passar pelas representações. Este é seu método e, mesmo que entenda diferente de Aristóteles, denomina dialética.
Continua aqui.
[1] O método que aqui Aristóteles propõe para a metafísica coincide com o terceiro uso da dialética, o “científico”, isto é, ainda uma vez um método dialético, que denominaremos, por comodidade, procedimento “diaporético”.
[2] Aristóteles não indica explicitamente a solução das aporias. Por vezes, tende para um lado; outras, são mistas; ou, ainda, intermediárias.

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