Por Diego Azizi
Introdução
Há, hoje em dia, uma tendência (quase) absolutamente difundida em se apropriar de falsos conhecimentos e vendê-los como se fossem sabedorias desenvolvidas por séculos e séculos de reflexão e raciocínio. Uma espantosa tendência que, ainda por cima, tenta auto-intitular-se como sabedoria, como ciência, como filosofia.
Quando usamos, no mundo acadêmico sério, a palavra opinião, não significa um mero “eu acho que…”, pois, até mesmo as opiniões devem ser bem argumentadas, demonstradas e fundamentadas. Portanto, darei sim minha opinião, porém, demonstrarei apoditicamente, ou seja, dando as razões pelas quais escrevo o que escrevo.
Devo confessar que nutro um desprezo absoluto quando se fala em literatura de auto-ajuda (e em relação a tudo o que é vendido com uma aparência daquilo que essencialmente não é, como quando a astrologia, as religiões e pseudo-religiões em geral, a ufologia, as teorias da conspiração, tentam se passar por ciência, filosofia, crença racional justificada).
Estudando filosofia, da maneira como ela deve ser estudada (não que exista um único método dogmático para estudá-la, mas no sentido de que ela, como uma atividade da Razão, deve ser estudada Racionalmente), acabamos adquirindo uma certa capacidade de analisar certos discursos, suas proposições, seus conceitos, suas pretensas verdades e suas conclusões. Para alguém cuja atividade intelectual está, pelo menos em certa medida desenvolvida, não é difícil enxergar que as obras de auto-ajuda não possuem nem proposições, nem conceitos, nem verdades e muito menos conclusões. Se existirem falácias, já é muito (e, na verdade, é só o que existe).
Mas porque esse tipo de literatura vende tanto? Porque atrai tantos consumidores? A resposta pode parecer simples, porém, não é.
Frequentemente esses livros são considerados (é claro, por pessoas que desconhecem totalmente o objeto de que falam) filosóficos e seu autores são intitulados verdadeiros sábios, cientistas, filósofos. Por exemplo, o livro “O segredo” pretende revelar um “segredo” milenar que supostamente grandes filósofos (a autora do livro cita Platão, Aristóteles, Galileu, Newton) guardavam, e por isso se tornaram as figuras que reconhecemos hoje. Uma grande bobagem, diga-se de passagem, pois na bibliografia que consta no final desse projeto de livro, não há um estudo sério, não há nenhum autor sério que foi analisado. Não há nada, apenas alguns sites pretensiosamente místicos e bobinhos. Ou seja, a fundamentação teórica para tais afirmações inexiste. Além do mais, podemos resumir o livro inteiro em uma única frase: se pensarmos positivo, coisas positivas acontecerão. Profundo, não? Mas esse livro é apenas um exemplo, dos milhões que existem por aí, e que infelizmente vêm “formando” as opiniões das massas de nossas grandes cidades.
Filosofia e auto-ajuda
A popularização da filosofia nesses últimos anos contribuiu indubitavelmente para que o dispensável mercado da auto-ajuda ganhasse a força absurda que vemos hoje. Particularmente, não culpo inteiramente as pessoas por consumirem esse tipo de porcaria, porém, elas possuem a faculdade da razão, e para emanciparem-se intelectualmente (utilizando um conceito do velho e genial Kant) é preciso correr atrás. Claro que fatores políticos e sociais interferem em suas escolhas e em seus conhecimentos, mas para o exercício do pensamento crítico, só é exigido pensar. Comprar e consumir irrefletidamente é, em última instância, burrice.
Com a filosofia em alta (pelo menos no nome) as pessoas possuem uma sede de conhecer esse nicho singular, porém, não sabem como ir atrás dela, quem ler, com quem falar…….enfim, a vontade existe, porém, o apoio não. Os publicitários de plantão, os escritores charlatães e as editoras inescrupulosas enxergam essa vontade de saber e a exploram ao máximo. Esses livros são tão fáceis de ler, de se entender, que quando o “comum dos mortais” se depara com uma “Crítica da Razão Pura” e com um “Quem mexeu no meu queijo”, é claro que o segundo leva a melhor. Há um rigor exigido pela filosofia, que as pessoas desconhecem, que as impedem de continuar seriamente a busca por compreendê-la. Como escreveu meu professor Mario Ariel Gonzalez Porta, um verdadeiro mestre para mim, e uma das pessoas que eu mais admiro intelectualmente e pessoalmente, “ a filosofia é vista como um espaço onde reina o capricho, podendo cada um dizer o que quiser. Seu caráter não-empírico é entendido como pura arbitrariedade, quando não como confusão crônica. Porém, essa impressão é falsa: a filosofia não é um caos de pontos de vista incomensuráveis, nem consiste simplesmente em possuir certezas. Trata-se de ter opiniões sobre certos temas bem definidos e sustentá-las em algo diferente de uma convicção pessoal; mais ainda, o núcleo essencial da filosofia não é constituído de crenças tematicamente definidas e racionalmente fundadas, senão de problemas e soluções”.1
O método e o rigor assustam quem não está acostumado a utilizá-los, por um lado, por covardia e falta de decisão, e por outro lado, por falta de preparo mesmo. Falta de preparo por parte de uma educação básica desprezível, falta de apoio por parte do Estado e dos grandes meios de comunicação, e inúmeros fatores sociais que contribuem para a defasagem intelectual das pessoas. A literatura de auto-ajuda aparece para dizer o que as pessoas já sabem (por isso a fácil assimilação) e também para inculcar a ideologia dominante do status quo nas cabeças pouco críticas. Já que a filosofia de verdade busca maturidade intelectual de seus humildes estudantes, a indústria cultural oferece para a grande massa uma filosofia de mentirinha para ser consumida e propagada.
Outro fator, além da popularização da filosofia, é o aumento das dificuldades encontradas na vida cotidiana das pessoas nas grandes cidades. O estresse, devido às horas intermináveis de trabalho, a falta de satisfação consigo mesmo e com o ofício que exerce, o fracasso nas relações amorosas, tudo isso são fatores que influenciam consideravelmente o consumo por esse tipo de literatura. No entanto, quando os livros são abertos, o que as pessoas encontram para sanar suas dores e vazios existenciais? Encontram frases do tipo: “Você é insubstituível”; “Você é do tamanho de seus sonhos”; “Tenha como exemplo pessoas ricas”; “Mantenha o foco”; “Seja otimista”; “Nunca desista”; e por aí vai. Ora, penso que buscar um conhecimento científico, filosófico e literário nos faz (quando levado a sério) um bem tão grande, encontramos coisas incríveis à respeito da condição humana e de nossa capacidade de evolução, sobre o mundo e o universo magnífico que habitamos, sobre os grandes edifícios do conhecimento que desde a antiguidade construímos e nos orgulhamos, tanto em Platão quanto em Dostoiévski, tanto em Nietzsche quanto em Descartes, tanto em Newton quanto em Einstein. Porém essa opção por buscar conhecimentos sérios exige decisão e coragem, como disse o velho Kant, nossa menoridade intelectual é “por culpa própria se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem. Sapere aude (ouse saber)! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento”!2
Percebemos que há um certo interesse econômico por trás desse tipo de literatura, tanto é que, é no mundo empresarial que essa pseudo-literatura é largamente difundida e apreciada. Ora, se vocês pensarem comigo, o que os livros de auto-ajuda e as palestras motivacionais (que derivaram destes últimos) recomendam? Eu lhes digo: aceite as ideologias dominantes, não reclame e sim produza, não estude apenas faça (essa é uma crítica que os amantes da auto-ajuda sempre fazem aos teóricos acadêmicos, pois, segundo os grandes eruditos da auto-ajuda, a academia é muito teórica e nada prática, como se não fosse o pensamento que devesse guiar as ações). Existe um sujeito, que muitos chamam de Professor Daniel Godri (coisa que ele não é, pois não possui títulos para tal, e nem dá aulas, o que é pior, apenas faz palestras motivacionais) e que é considerado como um dos maiores pensadores do Brasil. Poxa, até parece que ele é bom, mas como eu disse acima, é só aparência. Se Platão ressuscitasse, com certeza chamaria esse cara de sofista. Bom, em uma de suas “incríveis” palestras, intitulada de “empregado motivado x bola murcha”3, esse senhor nos diz coisas como: “não foque os problemas e sim as soluções”, ou “para cada motivado existem cem bolas murchas” (de onde ele tirou esses números?) e o pior, ele diz que o bola murcha é o que reclama da empresa, do salário e dos benefícios, pois este julga que o salário e os vales são insuficientes. Em outras palavras, ele diz que o cara ainda reclama de barriga cheia, afinal, ele não trabalha de graça. Vamos contra-argumentar isso através de uma forma silogística (se eu cometer um sofisma, podem me avisar): vejamos -Toda solução, é solução de um problema.
-Para haver solução, é necessário antes focar o problema.
-Logo, devemos focar antes os problemas, para chegarmos a uma solução, e não o contrário.
Bom, utilizei uma proposição categórica do tipo A, as premissas são verdadeiras e a conclusão segue-se necessariamente das premissas apresentadas. Facilmente, com uma análise crítica, conseguimos quebrar essas falácias sem ter que fazer a análise formal que acabei de fazer, é só pensar um pouco (apesar que da maneira como apresentei, fica mais divertido). Só para ressaltar, no momento em que esse senhor está falando sobre focar as soluções e não os problemas, notem que ele diz mais ou menos o seguinte: “É claro que quando você conseguiu o emprego, acontecia guerra em algum lugar, mas você focou as soluções e não os problemas”, isso quer dizer que o empregado focou as soluções para os problemas da guerra? Bom, a palestra ainda possui muitas outras pérolas.
Prometo que essa será a última quebra das falácias desse senhor:
-Todos os empregados bola murcha reclamam de condições que não lhes agradam no ambiente de trabalho.
-Os motivados aceitam as coisas tais como elas são.
-Logo, os melhores empregados, os motivados, não reclamam de condições ruins de trabalho e aceitam as coisas tais como são dadas pela empresa.
Ou seja, como dito acima, esses discursos da auto-ajuda, estão indubitavelmente ligados a interesses econômicos, onde o que deve imperar é uma docilidade conformista ao invés de um senso crítico desenvolvido e revoltoso (claro, sempre fundamentado e bem argumentado). Pensem comigo, um empregado não se motivaria mais se a empresa investisse em condições melhores de trabalho, benefícios como plano de saúde, vale-transporte e alimentação, ambientes menos estéreis, férias remuneradas, etc…? Esse senhor Daniel Godri cobra, mais ou menos, dez mil reais por duas horas de palestra, onde não diz absolutamente nada, a não ser uma retórica doce que visa atingir as paixões dos ouvintes. Se ao menos desse aulas sobre o que ele conhece, sobre marketing, que é sua área de atuação, e é um saber que vale a pena ser transmitido para estudantes que se interessem pela área, mas não é isso o que ele faz, e isso até nos faz duvidar de seus reais conhecimentos na área. Ou seja, esse tipo de discurso não faz bem, pelo contrário, é bastante nocivo. As pessoas submetem-se ao invés de emanciparem-se.
Segundo a definição de auto-ajuda, do Conselho Federal de Psicologia: “É um tipo de Literatura, um saber não-sistematizado, sem fundamentação científica e que beira o pensamento mágico” (revista Psique #23, DEZ2007). Estudos sobre os supostos “efeitos” dessas palestras, foram feitos, por exemplo, “Thorndike disse que apenas 10% dos benefícios esperados se concretizam quando trabalhos dessa natureza são realizados. E é isso que se observa mesmo. Após 1 mês ou 2, se não houver estratégias concretas de manutenção da aprendizagem, desses pequenos shows não resta nada mais que lembranças agradáveis”.4Ora, a importância psicológica dessas palestras reside no fato de que há um contexto, como um ritual mágico xamânico, em que os membros da tribo (os ouvintes) entram em uma espécie de transe místico e acompanham com admiração o que o xamã (o palestrante) diz. Acaba-se o ritual, acaba-se a magia, e os ouvintes retornam para um mundo onde essas fórmulas apreendidas não funcionam.
O mais engraçado é que pessoas muito inteligentes (digamos, uma inteligência instrumental) como empresários, administradores, publicitários, caem nessa bobagem pseudo-científica e filosófica. E são pessoas que possuem uma racionalidade instrumental desenvolvida para lidar com questões financeiras, jurídicas, políticas. Isso demonstra que não basta exercer uma razão instrumental, voltada para um saber empírico e mecânico (coisa que exige um grande esforço também), mas é necessária, também, uma razão crítica, fundamentada em um conhecimento substancial, filosófico, científico e artístico. Como disse o grande Sergio Paulo Rouanet: “Hoje, como ontem, só a razão é crítica, porque seu meio vital é a negação de toda facticidade, e o irracionalismo é sempre conformista, pois seu modo de funcionar exclui o trabalho do conceito, sem o qual não há como dissolver o existente”.5 A auto-ajuda é irracional.
Mas e quanto ao fato de que a auto-ajuda realmente ajuda pessoas com a auto-estima baixa? Afirmar isso, pura e simplesmente, seria absurdo. Em outras palavras, onde estão os estudos (sérios) que corroboram essa tese de que que a auto-ajuda realmente ajuda? Encontramos um estudo sério que prova, na verdade, o contrário. Mais uma prova da nocividade da auto-ajuda, agora não apenas a nível intelectual, epistemológico e econômico, mas sim, uma nocividade física e psicológica.
Baixa auto-estima piora com auto-ajuda, indica estudo6
Nessa parte, irei reproduzir a pesquisa na íntegra, para mostrar a vocês o quão grave pode se tornar o consumo desse tipo de escritos.
“Declarações de livros de auto-ajuda, como ‘vou ter sucesso’ ou ‘sou uma pessoa adorável’, podem surtir efeito negativo em pessoas com baixa auto-estima. A constatação vem de um estudo americano publicado em 07/2009 na revista ‘Psychological Science’. Os pesquisadores pediram a participantes com alta e baixa auto-estima que repetissem a frase ‘sou uma pessoa adorável’ e, depois, mediram o humor e o que sentiam sobre si mesmos. Aqueles com baixa auto-estima se sentiram ainda pior após repetir as frases. Em um estudo posterior, os participantes listaram pensamentos negativos e os positivos sobre si. Os psicólogos observaram que os voluntários de baixa auto-estima se sentiam melhor quando podiam ter pensamentos negativos do que quando focavam exclusivamente em ideias positivas. Para os especialistas, pensamentos positivos podem provocar sentimentos contraditórios em pessoas com baixa auto-estima. Ao ter de pensar positivamente, pode-se considerar os pensamentos negativos ainda mais desanimadores”.
Ou seja, aquela frase que impera em absolutamente todos os manuais de auto-ajuda já lançados em nosso planeta, a saber, “pensamentos positivos levam a conquistas positivas”, está cada vez mais sendo cientificamente refutado.
A necessidade do pensamento crítico
Para conseguir desvencilhar-se de pseudo-conhecimentos, e conseguir discernir o que tem substância daquilo que não tem, é necessário estudo. Estudar é fazer um exercício com a razão, é desenvolver um pensamento crítico e rigoroso, como se fosse um exercício físico. Um músculo só ganha força se for utilizado. Quando uma pessoa fica paraplégica, notamos que suas pernas se atrofiam, efeito da inutilização de seus músculos. Com a inteligência é a mesma coisa, se não exercitarmos nosso ceticismo, nosso pensamento crítico e fundamentado, nunca teremos uma inteligencia desenvolvida. Para tal, é necessário estudar, correr atrás de conhecimentos verdadeiros, e rigorosamente, pacientemente, progredir na capacidade de pensar criticamente. Se essa atividade for negligenciada, a inteligencia se atrofia. A burrice e a ignorância são diferentes. Na ignorância, ignora-se algo que não se sabe, na burrice ocorre o oposto, sabe-se e mesmo assim ignora.
O conhecimento nunca se oculta. A ciência, a filosofia, a cultura (alta) em geral é que é eclipsada pelas pessoas. Se há em uma livraria, seções de história, arte, filosofia, física, psicologia, mas as pessoas vão direto na seção auto-ajuda, em vista de um conhecimento mais aprofundado, é a burrice entrando na área. Há livros introdutórios de todas as áreas do saber, por exemplo, há obras de filosofia exclusivamente destinadas para a introdução do leigo em um universo fantástico do conhecimento humano, há inúmeras introduções à filosofia, à história da arte, à matemática, à psicologia, enfim, existe bastante coisa publicada para o leitor de primeira viagem não ter que se deparar logo de início com “As investigações lógicas” de Husserl. Porém, o consumidor desvia dessas áreas nas livrarias, nos sebos, etc. Desviam também de programas de tv que tentam passar algo de substancial, desviam de cursos oferecidos para quem quiser aprender, desviam de palestras, seminários, conversas. Ou seja, escolhem ser menores.
Tudo bem que a existência de um mestre, de uma figura que nos conduza a um caminho que desconhecemos seja de suma importância, porém, como nos disse Aristóteles, “é mister que o agente se encontre em determinada condição ao praticá-los [atos justos]: em primeiro lugar deve ter conhecimento do que faz; em segundo, deve escolher os atos, e escolhe-los por eles mesmos; e em terceiro, sua ação deve proceder de um caráter firme e imutável”.7 Chamamos aqui, a estes atos justos que Aristóteles escreveu, o agir para obter o melhor conhecimento possível e não o pior. Aristóteles considerava de máxima importância o papel de um mestre que nos ensinasse determinados conhecimentos, mas também, acima de tudo, considerava a vontade e a determinação do estudante em buscar o conhecimento de forma plena através do hábito (estudo). Ou seja, sem a determinação de querer buscar conhecimentos substanciais, não há mestre nenhum no mundo que fará um milagre desses com um estudante relapso. O caráter firme e imutável que Aristóteles escreve, e que precede a ação, é o que em grego se chama héxis, traduzindo, seria a disposição permanente de caráter. Essa disposição permanente de caráter é conquistada através do hábito, virtuoso ou vicioso. Em outras palavras, hábitos ruins, héxis ruim e vice-versa. Podemos transportar essa teoria de Aristóteles para o campo que eu estava discutindo anteriormente. Apesar de Aristóteles estar falando da sabedoria prática, estenderei o que ele disse para o campo intelectual também.
Se as pessoas desde sempre tiverem o hábito de “ler” e “estudar” livros de auto-ajuda, que como sabemos, não contém conhecimento nenhum, vão adquirir uma héxis relativa ao que se habituaram a praticar. Chegará uma determinada hora em que a situação se torna irreversível. Lembram que a disposição de caráter é permanente? Se é assim, depois da héxis consolidada, não há mais volta. Ou seja, depois de anos e anos em que alguém cultiva uma sabedoria vazia, quando se depara com algo que exige realmente um esforço intelectual, a aprendizagem se torna impossível. Como eu disse algumas páginas acima, depois de ler muito “Quem mexeu no meu queijo” e livros similares, quando se depara com uma “Crítica da razão pura”, nunca irá conseguir entender o que está escrito ali, e nem o porque. O intelecto se atrofiou, e a possibilidade de exercê-lo de maneira plena, é nula.
Portanto, a necessidade do desenvolvimento do pensamento crítico é absoluta, para não cair nas garras de pseudo-conhecimentos que supostamente nos ensinariam a viver bem e a conquistar tudo aquilo que gostaríamos. Carl Sagan, cientista brilhante e escritor fantástico, escreveu um livro chamado “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro”, livro este que tem como premissa básica, nos levar em direção ao ceticismo saudável, em direção ao pensamento crítico que, infelizmente, foi sendo perdido através do desenvolvimento de pseudo-ciências e pseudo-filosofias da moda, ou seja, os demônios de nossa época. Sagan escreve na introdução desse livro que na Universidade de Chicago, onde estudou, participou de um programa de educação geral, pois nessa instituição: “Considerava-se impensável que alguém desejasse ser físico sem conhecer Platão, Aristóteles, Bach, Shakespeare, Gibbon, Malinowski e Freud – entre muitos outros”.8 Eu afirmo ainda mais que o brilhante Sagan. É necessário que qualquer um que queira conhecer alguma coisa e queira exercer seu pensamento crítico, entre em contato com essa tradição de pensamento humano, não só o filosófico, mas o científico, o literário, o musical, o religioso, para não correr o risco de afirmar falsidades como se fossem as verdades mais evidentes do mundo.
Só assim conseguimos identificar charlatanices e conhecimentos falsos, e buscar conhecimentos realmente importantes para ampliar nosso horizonte de visão. Parafraseando Nietzsche, para conseguimos enxergar novos modelos de vida, novas perspectivas, e nos livrarmos da unilateralidade de “pensamento” que implica a auto-ajuda, é preciso que nos elevemos.
A necessidade de conhecer a si mesmo
Muitos livros de auto-ajuda vendem seu peixe anunciando sabedorias para o auto- conhecimento, para uma realização pessoal interna. Bom, se até agora admitimos que esses livros não possuem conhecimento nenhum sobre fatores externos (por exemplo: como ficar rico, como alcançar seus sonhos, como ser um bom líder, etc…), que existirá neles a respeito de conhecimentos internos, que dizer, a respeito da constituição interna do sujeito? Como as pessoas, através de livros com fórmulas cristalizadas e determinadas, e aplicando-as em um mundo contraditório e nada estático, conseguem conhecer a si mesmas? A não ser que consideremos que todas as pessoas sejam subjetivamente iguais, o que seria absurdo, não podemos admitir uma afirmação dessas.
Mais uma vez, apenas com estudos rigorosos e pacientes é que chegamos a isso. Essa concepção já figurava desde a mais antiga crítica grega a respeito desse conhece-te a ti mesmo. No diálogo “Alcibíades”, de Platão, Sócrates reforça ainda mais que, antes de conhecermos a nós mesmos, devemos cuidar de nós mesmos, ou seja, para tal conhecimento, é necessário determinado cuidado. Ocuparmos de nós mesmos, saber o que é saudável e nocivo, bom e mal, certo e errado são pressupostos de um conhecimento de nós mesmos. Não é a toa que Alcibiades, a promessa grega, tenha sido uma decepção. Apesar dos ensinamentos de seu mestre Sócrates, o jovem não ocupou-se de si mesmo e não exercitou sua alma, acabou saindo da Grécia e até ajudando os inimigos contra a sua própria pátria. O Epimeleïa heautou foi obscurecido pelo Gnôthi seauton9. Essa discussão sobre o cuidado de si e o conhecimento de si aparece de maneira genial no livro de Michel Foucault intitulado “A hermenêutica do Sujeito”, e não é minha intenção ir longe demais nesse ponto.
Claro, os manuais de auto-ajuda nada sabem sobre essa discussão milenare dão saídas bobinhas e banais para uma discussão séria e importante como essa. O conhecimento verdadeiro, nos permite traçar limites em nós mesmos, ou seja, quando possuímos um conhecimento que é fruto de um grande esforço e dedicação, sabemos sobre o que temos capacidade ou não de falar, de ensinar, de questionar, de corrigir, de refutar. Isso porque nos ocupamos de nós mesmos, buscando conhecer o que é relevante, conversar com quem nos acrescenta algo, assistir aulas que realmente falam sobre coisas importantes, etc. Conhecemos a nós mesmos na medida em que conhecemos as coisas das quais fazemos parte, como nosso mundo, nossa sociedade, nossa cultura, nossa razão. Contudo, essa busca é particular e ninguém pode fazer isso pelo outro. É uma busca solitária, porém, gratificante. A ignorância nunca é uma benção, mas a sabedoria sim.
Algo que é de suma importância saber, é que os escritores de auto-ajuda aplicam coisas que eles fizeram, e deram certo para eles, de maneira universal. Não foi porque eles pensaram positivo, acreditaram em seus sonhos e coisas do gênero que eles se deram bem. Uma série de fatores sociais, políticos, econômicos estavam em jogo. Por exemplo, alguém deu alguma oportunidade para que mostrassem seu trabalho, tiveram sorte de ser apresentados a alguem influente, nasceram em uma família estruturada, tiveram boa educação, e mais uma infinidade de eventos estão inter-relacionados. Frases do tipo “Acredite que você pode e seja otimista”, “Procure oportunidades, não obstáculos”,”Seja amigo de pessoas bem sucedidas e se afaste dos perdedores”, “Trabalhe pelos resultados, pelo sucesso, não pelo dinheiro”,”Administre bem suas finanças”,”Admire pessoas ricas, tenha elas como modelos”, não significam absolutamente nada. Se então um mendigo pegar esse livro, que por acaso se chama “Os segredos da mente milionária”, e fizer tudo o que está escrito, ele então se tornará milionário? Convenhamos, é preciso muito mais que isso pra ficar milionário.
O conhecimento de si mesmo é tão difícil quanto estudar filosofia ou psicologia. Não serão livros desse nível que ensinarão algo tão importante para a vida humana. É preciso esforço intelectual para isso, e talvez um Platão, um Kiekegaard, um Nietzsche, um Freud, até ajudem nessa tarefa, mas em última instância, o necessário mesmo é coragem para se servir do próprio entendimento sem a orientação de outrem, como nos disse Kant.
Bom, acho que o que eu gostaria de dizer, ainda disse em parte, mas o resto fica para outro texto, e com certeza há muito mais coisas a se dizer. Um texto desse tipo parece ser demasiado hostil e inflamado, porém, é necessário que se faça um ataque desses contra pensamentos mágicos como os disseminados pela auto-ajuda, e serve também como uma denúncia aos charlatães e como incentivo para quem gostaria de buscar conhecimentos verdadeiros. Sabemos que nem tudo está perdido, e a necessidade de combatermos os Paulos Coelhos, Augustos Curys, Danieis Godris, Içamis Tibas, e Lairs Ribeiros (entre muitos outros) se faz mais do que necessária.
“Não desejo ocultar o fato de que só posso encarar com repugnância(…)a inflada presunção de todos esses volumes saturados de sabedoria, como os que agora estão em moda. De fato, estou plenamente convencido de que(…)os métodos aceitos devem aumentar infindavelmente essas loucuras e disparates, e de que mesmo a completa aniquilação de todas essas fantasiosas realidades não chegaria possivelmente a ser tão prejudicial quanto essa ciência fictícia, com sua maldita fertilidade”.10 Aqui o velho Kant falava da metafísica, mas só porque a auto-ajuda ainda não existia em sua época.
1PORTA, Mario Ariel Gonzalez. A filosofia a partir de seus problemas. Loyola: São Paulo, 2002. p. 25.
2 KANT, Immanuel. A paz perpétua e outros opúsculos. Tradução de Artur Morão. Edições 70: Lisboa. p. 11.
3Me sinto na obrigação de lhes mostrar esse vídeo. Notem que cada enunciado contém uma falácia, claro, para aqueles que tenham uma ligeira noção de lógica. http://www.youtube.com/watch?v=Z9h0lRMlgAI
4http://bestsellerdavez.blogspot.com/search?updated-max=2007-08-24T17%3A08%3A00-03%3A00&max-results=20
5ROUANET, Sergio Paulo. As razões do Iluminismo. Companhia das letras: São Paulo, 2008. p.12.
6Reportagem extraída do blog http://bestsellerdavez.blogspot.com
7ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornhein. Abril Cultural: São Paulo, 1973. p. 270, 1105a.
8SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios. Tradução de Rosaura Eichemberg. Companhia das letras: São paulo, 1996. p. 15.
9Respectivamente, cuida de si mesmo e conhece-te a ti mesmo.
10KANT, Immanuel. Carta a Mendelssoh, a 8 de abril de 1766 in Works, Ed. Cassirer, Vol. IX, 56 sg.
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