Introdução:
Neste trabalho será desenvolvido a “lógica” segundo a filosofia kantiana. Usando como base seu escrito especificamente sobre a lógica, é seguido sua linha de pensamento e pormenorizado os cinco pontos-chave que destaca sobre esta ciência da qual desde Aristóteles quase nenhum passo deu tanto para frente como para trás. Pois, “o limite da Lógica acha-se determinado de maneira bem precisa, por ser ela uma ciência que expõe circunstanciadamente e prova de modo rigoroso unicamente as regras formais de todo o pensamento.” E tal “limite” é a vantagem de seu sucesso como ciência, o que será dissertado ao longo do trabalho a partir daqui.
Conceito de Lógica:
Tudo na natureza acontece segundo regras, como animado ou inanimado. Todas as coisas acontecem segundo leis, seja o peixe que vive na água ou a chuva que cai pela gravidade. E em toda parte não existe em geral irregularidade alguma, mas, se por acaso nos depararmos com alguma, dizemos apenas que ainda não conhecemos suas regras.
O exercício de nossas faculdades também decorre de regras que seguimos, primeiramente inconscientes, mas logo através de experiências tomamos seu conhecimento e logo tão familiar nos será que tomará grande esforço o pensar in abstracto.
A faculdade do entendimento não se põe à parte deste grupo que seguem regras, porém deve ele se considerar a fonte e a faculdade de pensar as regras em geral. “Assim como a sensibilidade é a faculdade das intuições, assim o entendimento é a faculdade de pensar, ou seja, a faculdade de submeter a regras as representações dos sentidos”[1]. Desta maneira, visto que o entendimento dá as regras e que tudo com que lida o entendimento está em harmonia com certas regras, podemos pensar tais regras sem a sua aplicação ou in abratacto?
O entendimento opera regras que são ou necessárias, isto é, aquelas as quais sem não seria possível o próprio entendimento, ou contingentes, isto é, aquelas que dependem de um objeto determinado do conhecimento. Sabendo disto, Kant descobre uma forma de se deparar com apenas tais regras, bastaria apenas pormos “de lado todo o conhecimento que temos de ir buscar apenas aos objetos, e refletirmos tão-só acerca do uso do entendimento em geral”[2]. Estas regras necessárias para o pensar são independentes de toda a experiência, ou seja, são a priori, seguindo assim, se referem sempre à sua forma e não à sua matéria.
Então, “a esta ciência das leis necessárias do entendimento e da razão em geral ou – o que é a mesma coisa – da simples forma do pensar em geral, chamamos de lógica”[3].
Ignorando a matéria do conhecimento, a lógica, a ciência que se ocupa do pensar em geral, deve se considerar:
1. “como fundamento de todas as outras ciências e como propedêutica de todo o uso do entendimento. E justamente [como dito antes] porque abstrai, de modo pleno, de todos os objetos”[4].
2. Não pode ser órganon das ciências
A lógica não pressupõe o conhecimento exato das ciências, dos seus objetos e das suas fontes, portanto não é uma “diretiva sobre o modo como se deve alcançar um certo conhecimento”[5], pois não lida com a matéria do conhecimento, ou melhor, é a forma para se propriamente alcançá-lo, desta maneira não pode ser um órganon[6].
A lógica, por não poder, enquanto propedêutica universal de todo o uso do entendimento e da razão em geral, ingressar nas ciências e antecipar a sua matéria, é apenas arte universal da razão (canônica Epicuri), de ajustar conhecimentos em geral à forma do entendimento e, por isso, só se chamará um órganon enquanto serve, não para o alargamento, as apenas para a apreciação e a retificação do nosso conhecimento.[7]
3. A lógica é um cânon da razão e do entendimento, que deve conter apenas leis puras a priori, que são necessárias e universais, nunca se remetendo à experiência.
Na psicologia, descobrimos às observações do nosso entendimento “simplesmente como o pensar para si se desenrola e como ele existe sob os muitos obstáculos e condicionamentos subjetivos – o que levará, então, ao conhecimento de leis meramente contingentes”[8]. Porém, tratamos na lógica de algo diferente, regras necessárias, isto é, não de como pensar, mas como devemos. Não há aqui uma forma de descrição do pensamento pela lógica, mas como no pensar ela tem que proceder, ou seja, a lógica deve ainda mostrar o uso legítimo do entendimento, a saber, “o que com ele próprio é consonante”[9].
A partir daqui, podemos deduzir quais são as outras propriedades essenciais da lógica segundo a filosofia kantiana, a saber, que ela é
4. Uma ciência racional quanto à matéria, ou seja, que tem a razão por seu próprio objeto. E ainda ela, a lógica, é um autoconhecimento do entendimento e da razão segundo à sua forma. Desta maneira, tendo como única questão: “Como é que o entendimento se conhecerá a si mesmo?”
Por fim, a lógica ainda se mostra:
5. uma doutrina ou teoria demonstrada. Pois lida apenas com as leis universais e necessárias, ou seja, princípios a priori, posto ainda mais claramente, princípios que não necessitam da experiência, já que seu objeto de estudo são as regras formais de todo pensamento, bem limitados dentro do campo da própria lógica, desta forma, ela ainda lida com todos os objetos em geral – “portanto, uma ciência do uso correto do entendimento e da razão em geral, mas não subjetiva, isto é, segundo princípios empíricos (psicológicos), sobre o modo como o entendimento pensa, antes objetiva, isto é, de acordo com princípios a priori, sobre como ele deve pensar”.
[1] KANT, Immanuel. Lógica [Excertos da] Introdução. Lusosofia: press. 2009. p. 4
[2] KANT, Immanuel. Lógica [Excertos da] Introdução. Lusosofia: press. 2009. p. 4-5
[3] KANT, Immanuel. Lógica [Excertos da] Introdução. Lusosofia: press. 2009. p. 5
[4] KANT, Immanuel. Lógica [Excertos da] Introdução. Lusosofia: press. 2009. p. 5
[5] KANT, Immanuel. Lógica [Excertos da] Introdução. Lusosofia: press. 2009. p. 5
[6] Ao contrário da lógica, a matemática, sim, é um órganon que amplifica o conhecimento de acordo a certo uso da razão.
[7] KANT, Immanuel. Lógica [Excertos da] Introdução. Lusosofia: press. 2009. p. 6
[8] KANT, Immanuel. Lógica [Excertos da] Introdução. Lusosofia: press. 2009. p. 6
[9] KANT, Immanuel. Lógica [Excertos da] Introdução. Lusosofia: press. 2009. p. 7

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