3. Biologia Pré-Aristotélica
Os sécs. VI e V a.C. na Grécia também marcaram o início da observação e da teorização sobre a vida. Anaximandro, mencionado na seção anterior, escreveu em seu poema “Da Natureza” que os seres vivos teriam surgido do barro, da lama, que no princípio cobria a terra, quando o Sol agiu no molhado. Primeiro teriam surgido animais e plantas, e mais tarde os seres humanos, que inicialmente teriam a forma de um peixe vivíparo, o cação-de-espinho (Squalus acanthias), que gera seu filho fora do corpo, em um tipo de placenta atado a um cordão, lembrando o que ocorre no parto humano (Fig. I.1). Mais tarde, os que viriam a ser humanos teriam perdido sua pele escamosa e foram habitar a terra firme. Vemos assim que Anaximandro tinha uma concepção primária de evolução, provavelmente herdada de mitos populares que diziam que os diferentes povos nasciam do próprio solo em que viviam.Empédocles, que resolveu o problema da mudança a partir de combinações das quatro substâncias (mediadas pelo amor e pelo ódio), era um médico na Sicília, tendo formulado a idéia de fluxo e refluxo do sangue no corpo. Achava que a respiração também se dava através dos poros da pele, onde o sangue se misturaria com o ar. O sangue seria a sede da inteligência. Na reprodução, Empédocles defendia que o embrião recebia algumas partes da semente do pai e outras da semente da mãe. Segundo as lendas, teria debelado uma epidemia desviando o curso de dois rios, para que suas águas se misturassem. Descrevia a visão como sendo o encontro de raios que emanariam dos olhos com raios provenientes dos corpos luminosos.
Empédocles concebia quatro estágios de desenvolvimento do Universo. Primeiro havia uma mistura dos quatro elementos; a seguir, os elementos teriam sido separados pela força do ódio (lembrando o big bang). No terceiro estágio havia uma separação total dos elementos, e no quarto eles teriam começado a se misturar devido à força do amor. Neste último estágio, as plantas teriam brotado da terra, e depois teriam brotado os diferentes órgãos e membros dos animais. Estes se atraíam entre si (através da força do amor), ao acaso, gerando monstros que não eram capazes de sobreviver. Mas aos poucos teriam surgido animais em que as partes se ajustavam harmoniosamente, e estes teriam sobrevivido, resultando na fauna atual. Esta concepção é costumeiramente citada como precursora da idéia de seleção natural. Ela é notável como uma tentativa de descrever o mundo apenas em termos de causa eficiente, e não final.
Demócrito foi o maior sistematizador da biologia e da ciência em geral antes de Aristóteles. Quase nada, porém, restou de seus numerosos livros, que expunham uma visão de mundo materialista e atomista. “Nada provém de nada; toda mudança é puramente agregação ou separação de partes. Nada acontece por acaso ou por intenção, tudo ocorre por causa e por necessidade. Nada há fora de átomos e espaço; todo o resto é impressão dos sentidos.” Na Biologia, realizou algumas dissecações em animais. Traçou uma distinção entre animais com sangue (vertebrados) e sem sangue, o que seria seguido por Aristóteles. Demócrito considerava que o cérebro é o órgão do pensamento, o coração o do valor e o fígado o da sensualidade.
Achava que a alma era feita dos sutis átomos de fogo, que provinham da respiração. Acreditava que as epidemias eram causadas por átomos que caíam à Terra de outros corpos celestes.
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