Ambos estávamos de acordo, eu talvez mais indiretamente, ele com uma justeza ou uma justiça mais profunda e implacável, na execração deste “Mundo Moderno” que, com estúpido orgulho, cada dia avançava mais no seu enterro e em que o espírito parecia definitivamente sepultado pela miséria e pelo número.
(Gonzague Truc, Pref. à La Crise Du Monde Moderne)
O historiador, escritor e crítico literário Gonzague Truc (1877-1972) escreveu estas palavras no prefácio à esplendorosa obra A Crise do Mundo Moderno (1928); de seu amigo, o filósofo francês, René Guénon (1886-1951), elas se referem à concepção deste em que o mundo moderno está imerso numa visão que sobrevaloriza as coisas que se medem; que se contam e que se pesam, ou seja, as coisas materiais, […] porque é apenas a estas que se pode aplicar o ponto de vista quantitativo, […] (GUÉNON, 1977, p. 129), Guénon defende ainda que essa pretensão em reduzir a qualidade à quantidade é uma característica distintiva da ciência moderna, sobretudo a partir de Descartes (1595-1650) e que esta se estende para além do âmbito científico abarcando o âmbito social e mesmo o religioso.
Dois dados recentemente divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e suas conseqüências, nos trouxeram à lembrança esta perspectiva.

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- O número de evangélicos subiu de 15,4% para 22,2% em dez (10) anos (2000-2010); isso significa que dos 190,7 milhões de brasileiros entrevistados, 42,3 milhões responderam pertença à fé evangélica.
- O número de católicos teve um decréscimo no mesmo período, de 73,6% para 64,6% (2000-2010).
Estes dados colocaram os evangélicos em polvorosa. Afinal, em três décadas o número de evangélicos brasileiros triplicou, comparando com o censo de 1980 em que apenas 6,6% se confessavam evangélicos, contra 89,9% de fiéis católicos.
Estes números são comemorados, festejados, não apenas nos púlpitos, mas, sobretudo nos veículos midiáticos utilizados pelos evangélicos. No dia quinze (15) de Julho, o Pr. Silas Malafaia, presidente da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Vitória Em Cristo, por exemplo, promoveu um debate em seu programa televisivo “Fala Malafaia”, exibido aos Domingos (12.h) na Rede de TV Bandeirantes, com a participação de importantes personagens do Movimento Evangélico, os pastores, Jabes de Alencar, Abner Ferreira, Everaldo Pereira (Vice-Presidente Nacional do PSC) e o Senador da República, Magno Malta, apesar da variedade de assuntos a tônica do programa foi exatamente a exaltação dos dados do IBGE acerca do crescimento do Movimento Evangélico brasileiro.
Muitos vêem estes dados como resultado da ação de Deus em terras brasileiras, como resposta às orações dos fiéis, como conseqüência da ação missionária e testemunho dos crentes.
A atmosfera é triunfalista, ainda mais tendo em conta a noticia da perda significativa de fiéis por parte do catolicismo. A fé do Movimento Evangélico triunfa!
Mas, será que o crescimento numérico dos evangélicos no Brasil reflete realmente a situação espiritual das igrejas evangélicas? A quantidade de membros e filiados às igrejas evangélicas é um indicativo seguro da ação de Deus? Os parâmetros usados para as conclusões triunfalistas dos evangélicos podem ser classificados como legitimamente Evangélicos?

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Temos que colocar essas questões diante da evidência em que o Cristianismo, na forma do Movimento Evangélico brasileiro, está aquilatando, valorando a Igreja de Cristo por meio de parâmetros que são estranhos ao espírito cristão.
Os evangélicos procuram afirmar suas virtudes por meio da quantidade – quantos somos (?) –, por meio da representatividade – temos entre nós políticos, empresários, universitários (?) – e por meio do marketing – construímos mega-templos, realizamos mega-eventos, movimentamos mega-valores (?) – e não por uma vida de unidade em Cristo, reconhecida pelo amor que devem manifestar os cristãos uns para com os outros e para com os não-cristãos (Jo. 13,34-35; 17,17-23).
Percebe-se com facilidade que a forma como os evangélicos vêem o mundo e como interagem com ele está calcada numa visão que poderíamos chamar de materialista, ou seja, uma visão em que as coisas, as conquistas materiais são aquilo que afere medida determinando o que é positivo ou negativo; e esta é a velha pretensão em reduzir a qualidade à quantidade, o apóstolo S. Paulo disse: Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. (I Co. 15,19) Ainda que este verso trate da dúvida posta sobre a ressurreição de Cristo e conseqüentemente sobre Seu futuro advento, ele reflete a percepção aguda de S. Paulo e da visão bíblica acerca da fugacidade deste mundo e da insegurança em que se põem os que se fiam nele.
Essa supervalorização do quantitativo segue a lógica de mercado, em que a produção e o consumo são valorizados a partir do plus, do mais, quanto mais produzimos, quanto mais consumimos, mais somos considerados prósperos e realizados. Em contrapartida o baixo poder de produção e de consumo é indicativo de inadequação ao mercado, e, resulta na exclusão social. A competitividade entre as diversas denominações e grupos evangélicos mostra como esta visão de mercado está ditando acentuadamente os rumos da expansão do Movimento Evangélico.
A lógica divina, conforme expressa nas Escrituras Cristãs, parece funcionar ao contrário, Ele escolhe as coisas fracas, vis, desprezíveis e que não são, para confundir as que são (I Co. 1, 26-29), porque nesta nulidade dos chamados é que se manifesta a glória de Deus (I Co. 1,29-31).
As Instituições da contemporaneidade – Banco, Escola, Empresa, etc. – estão marcadas pelo conflito entre a produção e a qualidade, e a própria qualidade é reduzida ao fator quantitativo, ou seja, o quanto se produz (“bem produzido”) no menor tempo possível – isso é bem revelado na lógica do ISO –, a Igreja, em sua face mais marcadamente institucional, a Igreja Evangélica, não escapa a esta lógica em que os fiéis são reduzidos a números, o que bem revela a euforia ante os dados do IBGE.
Em realidade, ouso dizer, que este triunfalismo põe a luz um aspecto demoníaco do movimento evangélico. Quais os motivos desta conclusão?
(1º) Porque a inversão do qualitativo para o quantitativo coloca a confiança dos fiéis em sua capacidade numérica e representativa e não no Altíssimo.
(2º) Porque o sentimento de orgulho e superioridade põe em destaque a tendência natural dos homens em dominar aos outros, afirmando sua pretensa superioridade contempla aos outros como objetos de conquista e domínio, ou como obstáculos que devem ser ultrapassados, vencidos – atitude facilmente constatável na relação dos evangélicos com ateus, agnósticos ou ainda, com o próprio fiel católico – esta atitude se opõe radicalmente à natureza de Cristo.
(3º) Porque o brado de vitória acerca das conquistas materiais tende a mascarar a triste situação de inautenticidade espiritual em que vivem milhares de fiéis e da agonia crescente daqueles que, no interior das igrejas evangélicas, como autênticos cristãos percebem este desvio, mas se vêem impotentes em face da situação.
Estas proposições não esgotam os motivos, mas, creio que são suficientes para suscitar à reflexão em cada cristão, para que ponderemos sobre todas as coisas em oração e humildade, para que cada um de nós tenha sempre em mente que “Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor nosso Deus”. (Sl.20,7)
BIBLIOGRAFIA.
GUÉNON, Réne. A Crise do Mundo Moderno. Lisboa – Portugal. Editorial Vega Ltda. 1977.
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