Por Diego Azizi
“Como você se sente?”, pergunta a repórter aos pais e parentes das vítimas de uma das maiores catástrofes do país, o incêndio de uma boate em Santa Maria (RS), que gratuitamente matou 232 jovens estudantes.
Como responder a uma pergunta de resposta tão óbvia, mas cujas palavras insistem em fugir dos lábios de quem é questionado? Como expressar uma dor que mata lentamente quem ainda vive sem a presença de seus entes mais queridos? Qual é a dúvida sobre a sensação de falta de chão da mãe que perdeu três filhos de uma só vez, ou do rapaz que perdeu o amor de sua vida?
O óbvio é explorado pela insensibilidade daqueles que estão lá apenas para cumprir seu trabalho: ser exclusivo e dar audiência.
Perguntas que não informam, números que não consolam, estatísticas que desesperam e um tom de insensibilidade que desestrutura até o mais distante espectador da tragédia. Não foi a bolsa de valores que sofreu uma queda, mas a burocratização do discurso da autoridade que fala com a mais artificial naturalidade sobre 232 mortos, burocratiza o pensamento e o sentimento daquele que ouve.
Quem ligava a televisão e buscava compreender a magnitude do ocorrido (em qualquer emissora) só encontrava despreparo, ausência de informação e exploração do desespero dos que sobraram. Não tem informação relevante, calem-se. “Estava cheia a boate?”, pergunta a repórter. Repetição exaustiva dos mesmos relatos condicionados por inquirições irrelevantes, despreocupação em ouvir os sobreviventes e perguntar aquilo que é mais banal, do tipo “você sentiu muito medo na hora?”, são sinais de completo descomprometimento de uma mídia que calada diria muito mais.
As mesmas respostas decoradas das autoridades, as mesmas informações despreocupadas dadas pelos repórteres, a mesma indiferença sobre a indignação daqueles que viram seus iguais morrendo ali, sem poder fazer nada. O que sobressai é o discurso técnico, o “se”(…).
“Se houvessem mais equipamentos, se houvesse treinamento, se houvesse(…)”, menos mortos seriam contados nos gráficos. O pensamento técnico e pragmático, indiferente à dor, remete à possibilidade da menor intensidade hipotética da desgraça. É como pensar “olha, incêndios ocorrerão, mas menos gente poderia morrer se tal coisa fosse feita”. Isso supõe a desgraça, e não a sua prevenção. Ninguém deveria morrer, não deveria haver incêndio. Que discurso mais insensível busca apenas a minimização de danos? O chefe dos bombeiros que fala com naturalidade sobre a desgraça, falando de normas técnicas, desespera quem ainda possui a faculdade de sentir intacta. E o alvará, estava em dia? O poder de um papel é invocado. Os bodes expiatórios são buscados. Os donos e a banda são assassinos e não os fiscais ausentes que não possuem nem face e nem identidade.
Quando liguei a televisão, fiquei sem palavras, sem pensamento e nem ação. Tamanha desgraça supera as limitações da linguagem. A razão é insuficiente. A racionalidade técnica da mídia e das entrevistas oficiais (des)intensificam nossa capacidade de sentir. Queremos saber o que aconteceu. Mas nos negaram isso frente à pergunta “como você se sente?”.
“As dores pequenas falam; as grandes se calam”, diria Montaigne. Mas o repórter, frente ao mais absoluto profissionalismo insensível quer uma resposta: “Como você se sente?”.
Afinal, um jovem sobrevivente chorando, em câmera lenta, com uma música triste de fundo, é a meta que esses repórteres devem atingir?
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