Voltaire

I

Voltaire conta uma ocasião em que uma família israelita de: pai, mãe, filha, filho, cozinheiro, lavrador e vinhateiro, e um capelão viajam mar a fora, mas acabam por ter sua embarcação afundada nas ilhas Maldivas.

Tendo o pai e mãe morrendo, o resto constrói barracas e se alimentam com provisões do barco e da ilha chamada Pedrabranca, esta, que é deserta. O Essênio chorava “talvez não restassem mais judeus, que a semente de Abraão ia acabar”.

Assim, o jovem judeu oferece sua irmã ao essênio, mas ele a nega, justificando-se pelo voto de nunca se casar, ou seja, pelo o que se legislou para tal.

Os outros eunucos não podendo fazer filhos, só restou o jovem judeu para o fazer, pedindo, então, a benção pelo casamento. O capelão se nega a servir ao incesto para a irmã por parte de mãe, se fosse de pai ainda ia, pois, estas, eram suas leis.

Mas, o jovem diz entender que seja incesta, porém, em Jerusalém, na ilha, onde nada existe, é perfeitamente permitido. Deste modo, ele acredita que as leis estão anexadas a seus povos, costumes, cidades.

O judeu casou-se com a irmã e teve uma filha. 14 anos depois a mãe morre, e o pai pede ao capelão para desposá-la. Este último se nega e se muda para a ilha do lado, não querendo ficar ao lado de um homem que faltava à lei – de Jerusalém -, enquanto que o judeu se casa com a filha para não reduzir à nada a semente de Abraão, mas poderia ter dito ao capelão que apenas segue a lei natural.

O essênio chega à ilha Attole povoada e civilizada, mas lá o fazem escravo. Dizem que era lei que todos os estrangeiros que abordassem a ilha seriam reduzidos à escravidão, protesta dizendo que não pode ser lei, já que não está escrito no Pentateuco. Mas, seu amo era muito bom e se afeiçoaram. Quando, um dia, assassinos apareceram para matar e roubar seu amo. Perguntaram aos escravos se estava em casa e se era rico, todos negaram.

Mas, o essênio entendia que a lei não permite mentiras, e disse a verdade, que o amo estava em casa e que era rico. Assim, seu amo morreu. O essênio foi acusado de trair seu amo, mas o essênio disse que por nada mentiria; e foi enforcado.

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II

Voltaire diz depois que, dirigindo-se a Versalhes para tratar de negócios, vê passar uma bela mulher acompanhada de outras. Pergunta a seu advogado quem é e acaba por saber que é a filha do Rei. Dizendo da hipótese dela ser rainha da França, logo, seu advogado lhe informa que é impossível, de acordo com a lei sálica, pois, mesmo o autor sendo desconhecido, acabou-se por adotar essa lei em terras não sálicas também, tendo esta lei que uma mulher não herdaria um chavo em terras sálicas.

Perdendo por unanimidade numa câmara do Parlamento, seu advogado lhe diz que se fosse em outra câmara o resultado seria inverso. Retrucando que “portanto, cada câmara, cada lei”, em reposta, o advogado disse que existem vinte e cinco comentários acerca do que é comum em Paris, por vinte e cinco vezes o comum é equívoco em Paris. Sabendo depois que na Normandia seria julgado muito diferente de Paris, foi para lá. E conheceu um jovem que desesperava por ter um irmão mais velho, pois, aonde se encontravam, a lei dava tudo ao primogênito. Voltaire deu-lhe razão já que estava habituado a onde vivia a partilhar tudo em igualdade, tendo, por vezes, os irmãos não se dando melhor.

Se as leis são como trajes, convenções humanas, não tem como saber como fazer um bom negócio. Um cidadão de Londres disse-lhe uma vez: “A necessidade faz as leis e a força impõe a sua observância”. Porém, quando questionado se a força não faria também as leis, ele diz que sim.

Podemos ver que, para Voltaire, é importante seguir as leis de cada lugar, pois levando em conta a diversidade humana nessas questões, por vezes, o que é legal em uma terra pode ser ilegal em outra. Então conhecer e respeitar essas leis pode dar vantagens e evitar prejuízos, como no seu caso no Parlamento e o essênio na ilha de Attole.

Mas, logo, observando as formas de organizações de alguns seres vivos, percebe que o humano, ao contrário das abelhas e formigas que têm as mesmas leis em qualquer lugar, se assemelha mais ao macaco, pois não parecem reunidos por leis fixas e fundamentais, e afirma que é devido ao dom da imitação, à ligeireza e à nossa inconstância que nunca nos permitiu ter leis uniformes e duráveis.

Resumo do Dicionário Filosófico de Voltaire. Capítulo Leis (das)

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