continua do capítulo II. E há outro post sobre as quatro causas de Anthony Kenny, tema deste capítulo.
Metafísica – Livro I – Cap. III
“É pois manifesto que a ciência a adquirir é a das causas primeiras (pois dizemos que conhecemos cada coisa somente quando julgamos conhecer a sua primeira causa)”[1]. E para estas causas há quatro sentidos:
- A causa material: “entendemos por causa a substância e a qualidade”[2].
- A causa formal: a matéria e o sujeito.
- A causa eficiente: “de onde vem o início do movimento”[3].
- A causa final: “que se opõe a precedente, é o ‘fim para que’ e o bem (porque este é, com efeito, o fim de toda a geração e movimento)[4].
“A maior parte dos primeiros filósofos considerou como princípios de todas as coisas unicamente os que são da natureza da matéria.”[5] Tudo se gera, mantém e morre pela/para a substância que se mantém.
“Nada se gera e nada se destrói, como se tal natureza subsistisse indefinidamente(…) porque deve haver uma natureza qualquer, ou mais do que uma [uns ou múltipla], donde as outras derivem, mas conservando-se ela inalterada.”[6]
Mas quanto à natureza destes princípios:
- Tales dizer a água: “levado sem dúvida a esta concepção por observar que o alimento de todas as coisas é úmido e que o próprio quente dele[7] procede e dele vive.”[8] E, Homero e Hesíodo, teriam concebido a natureza da mesma forma.
- Hipon[9]: “ninguém, de certeza, pensaria em colocar na série destes [pensadores], em razão da pouquidade de seu pensamento”[10].
- Anaxímenes e Diógenes dizem o ar como “anterior à água, e, entre os corpos simples, como o princípio por excelência”[11].
- Hípaso Metapontino[12] e Heráclito de Éfeso é o fogo[13].
- Empédocles são os quatro elementos, incluindo agora a terra. “Estes elementos subsistem sempre e não gerados, salvo no que toca ao aumento ou diminuição, quer se unam numa unidade, quer se dividam a partir dela”[14]. Aristóteles se refere aqui à Philia e ao Neikos, Amizade e Discórdia (ou ódio) de Empédocles, respectivamente, ao agente que une e ao agente que separa. Causas eficientes.
- Anaxágoras diz os princípios serem infinitos:
Quase tudo que é constituído de partes semelhantes, como a água ou o fogo, diz ele, está sujeito à geração e à destruição de uma só maneira, a saber, pela união e pela desunião; as coisas nascem de outra maneira, nem morrem, mas subsistem eternamente. Resulta daqui que deveria considerar-se como causa única somente aquela que está na espécie da matéria. Assim prosseguindo, a própria realidade mostrou-lhes o caminho e obrigou-os a um estudo ulterior(…) Não é seguramente o sujeito autor das suas próprias mudanças: por exemplo, nem a madeira é causa das próprias modificações, pois não é a madeira que faz a cama, mas alguma outra coisa é a causa.[15]
Aqui somos levados à causa do movimento que Anaxágoras expõe: o nous, mente, inteligência ou espírito. Mas precedido, diz-se, por Hermótimo de Clazômenes. Assim, Aristóteles descarta os precedentes desta causa eficiente dizendo que “existir ou o produzir-se da ordem e do belo nas coisas não é provavelmente originado nem pelo fogo, nem pela terra, ou outro elemento do gênero(…) Os que, pois, assim pensaram [como Anaxágoras e Hermótimo] fizeram uma mesma coisa da causa que é princípio do bem nos seres e da causa donde vem aos seres o movimento.”[16]
“Este capítulo tem por objetivo a indicação dos quatro sentidos em que Aristóteles toma a palavra causa – material, eficiente, formal e final – e a referência histórica das opiniões dos pré-socráticos acerca da causa material.”[1]
Continua no capítulo IV.
[1] Ibidem, p. 216, nota de rodapé.
[1] Ibidem, p.216.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem.
[5] Ibidem.
[6] Ibidem.
[7] Segundo alguns comentadores, Tales pensava que o calor o fogo se originavam pela evaporação do úmido.
[8] Ibidem p.216-7.
[9] Bonitz esclareceu que Aristóteles aproximou Hipon de Tales não pela idade, pois viveu na época de Péricles, mas pelos princípios que professava. Simplício diz que Hipon era ateu: talvez por este motivo Aristóteles se referiu a ele com desconsideração.
[10] Ibidem p.217.
[11] Ibidem.
[12] Filósofo do séc. VI a.C. que alguns historiadores filiam na Escola Pitagórica.
[13] Dito os elementos/princípios, é preciso deixar claro que não se pode pensar meramente nos elementos, mas pensar em suas propriedades. A água é a umidade. “Em seu estado estável o ar é invisível, mas quando é movido e condensado ele primeiro se torna vento, em seguida nuvem, depois água e, finalmente, a água condensada se torna lama e pedra. O ar rarefeito torna-se fogo, completando assim a escala dos elementos. Desse modo, a rarefação e a condensação podem conjurar tudo a partir do ar existente (KRS 140-1) Anaxímenes faz a relação de densidade e temperatura.” O fogo é o devir e não o calor, por isso Heráclito usa o exemplo do rio também.
[14] Ibidem.
[15] Ibidem, p.217-8.
[16] Ibidem, p.218.
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