“Creio que a melhor definição que posso dar do homem é a de que se trata de um ser que se habitua a tudo”.- Dostoiévski[1]

Onde podemos encontrar a gênese dos conflitos entre os homens? E onde estão as cordas de amor que nos prendem em atos de solidariedade aos nossos semelhantes? No interior do homem digladiam forças antagônicas, num ímpeto tão vigoroso, que parecem estar prestes a nos despedaçar. Mas, ao mesmo tempo este caráter multiface do fenômeno humano nos capacita adaptar-se a quaisquer circunstâncias. Dostoiévski soube como poucos reproduzir em suas personagens (na maioria das vezes tão patéticas que é quase impossível que não nos identifiquemos com algumas delas) o imenso e intricado labirinto que é o “universo interior” do homem, povoado pelos mais tenebrosos “demônios”. Em seus romances todas as personas que carregamos dentro de nós figuram com tanta vitalidade que mal podemos distinguir se ao criá-las o autor olhou para dentro de si ou para dentro de nós. Todavia, não é improvável que ao olharmos para nosso interior com audácia, perspicácia, sensibilidade e sinceridade, vejamos o homicida e o filantropo, o adúltero e o bom marido, o luxurioso e o abstêmio, o jogador e o austero, o parricida e o filho amoroso, o homem vil e a criança dócil e indefesa ante um mundo mal. Personagens tão corriqueiros no mundo literário de Dostoiévski. Corriqueiros também no nosso mundo; o homem é um ser multidimensional, e, esta característica tem suscitado tantas investigações cujos resultados são as mais variadas concepções sobre a natureza humana com as quais devemos lidar.
[1] DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. “Recordações da Casa dos Mortos”. Publicações Europa-América, 1972. Pág.15.
Deixe um comentário