4. O Estágio Dedutivo em Aristóteles

O estágio dedutivo parte dos princípios explicativos (generalizações), obtidas por meio da indução (enumerativa e abdutiva), e esses princípios servem como premissas para que se deduzam outras afirmações a respeito dos fatos. Esse processo de explicação dedutiva, segundo a lógica aristotélica, envolveria apenas quatro tipos de proposições, mostradas na Tabela IV.1.

Um exemplo de dedução envolvendo apenas afirmações do tipo A (apelidado Barbara) é o seguinte silogismo (ou seja, argumento “com lógica”): Todos os planetas são corpos que não cintilam. Todo C é B Todos os corpos que não cintilam estão próximos da Terra. Todo B é A

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Todos os planetas são corpos que estão próximos da Terra. Todo C é A

Tipo Proposição Notação moderna Diagrama de Venn

A Todos os S são P ∀x (Sx → Px)

E Nenhum S é P ∀x (Sx → ¬Px)

I Algum S é P ∃x (Sx ∧ Px)

O Algum S não é P ∃x (Sx ∧ ¬Px)

Tabela IV.1: Quatro tipos de proposições. Os conectivos lógicos são: “→” implicação,

“¬” negação, “∧” conjunção, “∀” significa “para todo” e “∃” “existe ao menos um”.

O sujeito da conclusão (C) é chamado “termo menor”, e o predicado da conclusão (A) é o  termo maior” (o que coincide com os tamanhos dos conjuntos desenhados na linha A da   Tabela IV.1). O termo que aparece apenas nas premissas (B) é o “termo médio”. Este é um silogismo válido, ou seja, se as premissas foram verdadeiras, a conclusão será necessariamente verdadeira. Porém, é possível que uma das premissas seja falsa. Neste caso, não há garantia de que a conclusão seja verdadeira e, segundo Aristóteles, a explicação não é satisfatória.

O silogismo acima é válido, mas há algo de errado: estamos dizendo que todos os planetas estão próximos da Terra (a conclusão) porque não cintilam (o termo médio). Mas a não-cintiliação não é causa da proximidade, e sim o contrário. A cintilação é aquele fenômeno em que as estrelas que observamos ficam piscando intermitentemente. Hoje sabemos que sua origem são flutuações na atmosfera. A luz de um planeta não cintila significativamente porque ela é mais intensa do que a luz de uma estrela. Dadas essas evidências, é razoável supor (por abdução) que a causa da cintilação (ou uma das causas) está relacionada com a proximidade em relação à Terra. Ou seja, a causa (a explicação) da não cintilação é a proximidade com a Terra, e não o contrário, conforme sugerido pelo silogismo acima. Aristóteles impôs cinco requisitos extra-lógicos para as premissas de uma explicação científica. 1) As premissas devem ser verdadeiras. 2) As premissas devem ser primárias e indemonstráveis, ou, pelo menos, deve haver alguns princípios da ciência que são indemonstráveis, para que se evite uma regressão ao infinito. 3) As premissas devem ser melhor conhecidas do que a conclusão, ou seja, algumas leis gerais da ciência devem ser evidentes, por meio da faculdade da “intuição”. Esta posição de que as leis científicas afirmam verdades acessíveis à intuição ou à razão, e que estas teriam um caráter necessário, teria uma longa influência na filosofia da ciência. 4) As premissas devem ser anteriores em um sentido absoluto ou ontológico (mas não num sentido epistemológico, ligado ao ser humano, pois para este o que é anterior é o que é observável pelos sentidos). 5) As premissas devem ser as causas da atribuição feita na conclusão.

Ora, como já vimos, o silogismo acima viola o quarto requisito. Para que tenhamos uma explicação científica, a causa deve constar como termo médio das premissas (letra A abaixo), e o efeito como termo maior (letra B) (em sua notação, em 78b1, Aristóteles inverte essas letras):

Todos os planetas são corpos que estão próximos da Terra. Todo C é A

Todos os corpos que não estão próximos da Terra não cintilam. Todo A é B

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Todos os planetas são corpos que não cintilam. Todo C é B

Aristóteles sugeriu que a ciência tem uma certa estrutura explicativa, baseada nos níveis de generalidade de suas proposições, que se concatenam dedutivamente. No nível mais alto acham-se os princípios de identidade, não contradição e terceiro excluído, aplicáveis a todos os argumentos dedutivos21. No nível seguinte se encontram os princípios e definições da ciência particular em questão. E mais abaixo, estão os outros enunciados da ciência em questão.

Qualquer explicação, para Aristóteles, deve envolver os quatro aspectos da causação mencionados anteriormente, a saber, a causa formal, a causa material, a causa eficiente e a causa final. Destaca-se aqui sua insistência na causa final, o que equivale a uma explicação teleológica. A causa final do processo de camuflagem de um camaleão é escapar de seus predadores. A causa final do movimento do fogo é atingir seu “lugar natural”, que se encontra para cima de nós.

Aristóteles criticava os atomistas por sua tentativa de explicar a mudança em termos apenas de causas materiais e eficientes. Ele criticava a ênfase dos pitagóricos com a matemática dizendo que eles teriam uma preocupação exclusiva com as causas formais.

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19 POPPER, KARL R. (1934), Logik der Forschung, Springer, Viena. The Logic of Scientific Discovery, Hutchinson, Londres, 1959. A Lógica da Pesquisa Científica, trad. L. Hegenberg & O.S. da Motta, Cultrix/Edusp, São Paulo, 1975. Tradução abreviada: “A Lógica da Investigação Científica”, trad. P.R. Mariconda, in Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1979, pp. 1-124.

20 ARISTÓTELES (2005), op. cit. (nota 16), Livro I, § 2, pp. 253-4 [71b8-72a5]; § 13, pp. 276-8 [78a22-78b31].

21 Em termos proposicionais (onde “∧” é a conjunção, “∨” a disjunção, e “↔” a bi-implicação), o princípio de identidade afirma que da verdade de P se segue a verdade de P: P P; o princípio de não contradição afirma que dados P e sua negação ¬P , no máximo um deles é verdadeiro: ¬(P ∧ ¬P); e o princípio do terceiro excluído afirma que dados P e ¬P , pelo menos um deles é verdadeiro: P ∨ ¬P.

 

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