1. Explicando a Explicação

A análise da explicação científica feita por Aristóteles foi retomada no séc. XX, de forma mais moderna, por Hempel & Oppenheim. Vale a pena fazer um resumo de como, atualmente, se procura explicar o que é “explicar”, e faremos isso baseado no filósofo da ciência Wesley Salmon22.

Em primeiro lugar, é preciso distinguir entre explicação e confirmação (ou verificação). Considere a questão: “Por que o cacauzeiro está morrendo?”. Uma explicação seria: “Porque ele foi atacado por um fungo, a vassoura-de-bruxa”. No entanto, poderíamos tentar responder: “Porque suas folhas estão ficando amarelas”. Isto porém não é uma explicação. Na verdade, o amarelamento das folhas é evidência de que o cacauzeiro está morrendo: é uma maneira de verificar (confirmar) este fato. Esta última resposta dada só seria correta se ela respondesse à seguinte questão: “Como você sabe que o cacauzeiro está morrendo?” A resposta seria uma confirmação do fato, não uma explicação.

Em segundo lugar, é interessante perceber que há diferentes tipos de explicação. O que interessa mais à filosofia da ciência são as perguntas do tipo “por quê…?” Mas há também explicações do tipo “como…?”: “Explique-me como montar este brinquedo” “Explique-me como chegar na feira de livros.” Tais perguntas são importantes em ciência, especialmente na implementação de métodos. Há também explicações do tipo “o que…?” Por exemplo: “Explique-me o que significa ‘antiperistasis’”. “Explique-me o que está errado no motor de meu carro”. Este segundo caso pode ser transformado numa pergunta “por quê…?”, ao passo que o primeiro é simplesmente o pedido de uma definição.

Concentrando-nos nas explicações do tipo “por quê…?”, o terceiro ponto a ser salientado é a relação entre explicar e entender (compreender). Quando qualquer tipo de explicação nos é dada, temos (em geral) a sensação psicológica de que entendemos. “Por que Suzana quebrou seu vaso de flores?” Que estranho! Por que será? Quando a resposta nos é dada, sentimos um certo alívio, pois passamos a entender: “Porque Suzana queria sensibilizar seu namorado, que a estava visitando, para que ele lhe comprasse um vaso mais caro e bonito”.

Entendeu? Sim! Identificamo-nos com este motivo, temos empatia, passamos a entender os motivos ocultos de Suzana. Este exemplo serve como um “protótipo” de explicação: estamos familiarizados com as motivações dos seres humanos. No entanto, nas ciências naturais geralmente buscamos explicações que não são antropomórficas. “Por que caem raios?” Não tentamos explicar falando de um Deus antropomórfico (como na mitologia grega), mas tentamos reduzir o fenômeno a uma teoria com a qual estejamos familiarizados, por exemplo a física dos fenômenos elétricos e magnéticos. Assim, parece que as explicações envolvem uma redução ao familiar, ao que nos é familiar, seja ele a psicologia humana, seja ele uma teoria que conhecemos bem.

Notamos assim que há dois termos em uma explicação: há o “estranho” que queremos explicar – cujo termo técnico é explanandum – e há o “familiar” que usamos para explicar –  o explanans.

Por fim, devemos considerar o contexto (pragmático) em que uma pergunta “por quê…?” é feita. “Por que Sócrates morreu?” Poderíamos responder várias coisas. Para tornar nossas perguntas mais precisas, é sempre bom salientar qual é a classe de contraste da pergunta. Por exemplo: “Por que Sócrates morreu, e não Platão?” Resposta possível: “Porque foi ele quem foi acusado de corromper a juventude” Usemos agora outra classe de contraste: “Por que Sócrates morreu, e não fugiu?” Resposta: “Porque ele não queria desrespeitar as leis”. “Por que Sócrates morreu, e não continuou vivendo na prisão?” “Porque ele foi obrigado a tomar cicuta”.

Nas ciências naturais existem três grandes tradições de explicações: o delineamento de causas e mecanismos; a unificação a partir de leis gerais; a teleologia.

22 Seguimos, com algumas modificações: SALMON, W.C. (1992), “Scientific Explanation”, in SALMON, M.H. et al. (orgs.), Introduction to the Philosophy of Science. Englewood Cliffs: Prentice Hall, pp. 7-41.

 

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